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sábado, 21 de abril de 2018

Tiradentes um bode expiatório ou só um falso herói?



Os estudos históricos de natureza acadêmicos há mais de 30 anos que vem nos apresentando uma produção histórica não factual e muito pouco ficcional, esta historiografia mais criteriosa e crítica nos mostra uma inconfidência mineira diferente daquela que aprendemos nos livros didáticos, e infelizmente nos filhos continuam aprendendo que os livros didáticos continuam mistificando a figura de Tiradentes como um herói que lutou pela emancipação do Brasil. Mas um erro que ele não poderia luta por um Brasil por que ainda não havia uma ideia de nação brasileira, quanto mais uma ideia de estado brasileiro. Os mineradores dos gerais não tinham tais valores patrióticos, eles protestavam contra a devassa, contra a exploração e contra o aumento do controle nas áreas de mineração imposto pelo estado português. Não havia caráter político e ideológico na luta dos inconfidentes, mas puramente econômico.
Embora a historiografia oficial considere a inconfidência mineira (1789) como uma grande luta para a libertação do Brasil,  historiadores como inglês brasilianista Kenneth Maxwell, sua obra "A devassa da devassa" (Rio de Janeiro, Terra e Paz, 2ª ed. 1978.), diz que "a conspiração dos mineiros era, basicamente, um movimento de oligarquias, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa", e que objetivava, não a independência do Brasil, mas a de Minas Gerais como uma forma de se livrarem da exploração da autoridades portuguesas que cobravam de forma compulsória e forçada o imposto real (derrama) que era o quinto (1/5 ou 20%) da exploração aurífera como no inicio da mineração não respeitando as limitações, o esgotamento das minas que já não produziam como antes.
A historiografia não factual e crítica nos mostra um Tiradentes bem mudado: sem barba, sem liderança e sem glória. Segundo Maxwell, Joaquim José da Silva Xavier não foi senão o "bode expiatório" da conspiração. (op.cit., p. 222) "Na verdade, o alferes provavelmente nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos mais amplos do movimento." (p.216) O que é natural acreditar. Como um simples alferes (o equivalente a tenente, hoje), que era o alferes Joaquim José da Silva Xavier, apelidado de "Tiradentes", poderia liderar grandes proprietários rurais, clérigos, intelectuais e alguns oficiais, podemos cita o contratador Domingos de Abreu Vieira, os padres José da Silva e Oliveira Rolim, Manuel Rodrigues da Costa e Carlos Correia de Toledo e Melo, o cônego Luís Vieira da Silva, os poetas Cláudio Manuel da Costa, Inácio José de Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga, o coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes, o capitão José de Resende Costa e seu filho José de Resende Costa Filho, o sargento-mor Luís Vaz de Toledo Pisa?
A Folha de S. Paulo publicou um artigo (21-04-98) no qual se comentam os estudos do historiador carioca Marcos Antônio Correa. Correa defende que Tiradentes não morreu enforcado em 21 de abril de 1792. Ele começou a suspeitar disso quando viu uma lista de presença da Assembleia Nacional francesa de 1793, onde constava a assinatura de um tal Joaquim José da Silva Xavier, cujo estudo grafotécnico permitiu concluir que se tratava da assinatura de Tiradentes. Segundo Correa, um ladrão condenado morreu no lugar de Tiradentes, em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida pela maçonaria. Testemunhas da morte de Tiradentes se diziam surpresas, porque o executado aparentava ter menos de 45 anos. Sustenta Correa que Tiradentes teria sido salvo pelo poeta Cruz e Silva (maçom, amigo dos inconfidentes e um dos juízes da Devassa) e embarcado incógnito para Lisboa em agosto de 1792.
Isso confirma o que havia dito Martim Francisco (irmão de José Bonifácio de Andrada e Silva): que não fora Tiradentes quem morrera enforcado, mas outra pessoa, e que, após o esquartejamento do cadáver, desapareceram com a cabeça, para que não se pudesse identificar o corpo.
Frase atribuída a Tiradentes pelos republicanos, "Se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria pelo Brasil". Como só tinha uma, talvez Tiradentes tenha preferido ficar com ela. Não se pode esquecer que como a elite branca exploradora e excludente deste país não produziu heróis trataram de fabricar um.  


Prof. José Cícero Gomes

quinta-feira, 24 de março de 2016

Brasil Colonial era um grande foco de epidemias


Brasil Colonial era um grande foco de epidemias

POSTAGEM DE 23 DE MARÇO DE 2016 ΙΣΤΟΡΊΑ NOSSA CAMINHADA   

Prof. José Cícero Gomes, para ΙΣΤΟΡΊΑ NOSSA CAMINHADA.
Havia um distanciamento enorme entre os lusitanos e seus parentes que vinham se aventura no Brasil ou estavam aqui em degredo. Pois o trajeto de Lisboa ao Brasil era muito difícil, insalubre e mortífero para velhos, crianças e quem tivesse a saúde fragilizada. Viajar em mares nunca d’antes navegado não era para qualquer um. Assim as dificuldades e os perigos faziam com que o Brasil fosse pouco visitado nos séculos XVI, XVII e XVIII.

A SOCIEDADE LUSO-BRASILEIRA, SUAS DOENÇAS E CONDIÇÕES SANITÁRIAS.

Os portugueses quando aqui chegaram, em 1500, encontraram uma grande população indígena que viviam de maneira seminômade que possuía uma cultura pouco heterogênea em termos culturais e linguísticos. Tupis-guaranis, tapuias, goitacases, aimorés e outras etnias se dispersavam pelo litoral e o interior. É bom lembramos que aqui abaixo do Equador não havia muitas das doenças virais e bacterianas existente no velho mundo. Entre as doenças de que sofriam os indígenas no principio da colonização portuguesa no Brasil, o historiador Lourival Ribeiro (1971) cita as “febres[1]”, as disenterias, as dermatoses, os pleurises[2] e o bócio endêmico[3] como sendo as moléstias[4] prevalentes entre os indígenas. Passado o período de exploração da costa, cuja principal atividade econômica era a extração do pau-brasil, a Coroa portuguesa inicia, com a expedição de Martim Afonso de Souza (1530-1533), o processo de colonização e ocupação territorial. Esse período foi marcado pela exaltação da natureza brasileira. Parecia que a doença raramente afligia os habitantes da América. O certo é que, ao findar o período colonial, os poucos índios que viviam sob o domínio português eram pertencentes ao último escalão da sociedade. A escravização e a matança, iniciadas com a captura ou desocupação de terras, contribuíram menos que as doenças importadas para o que os historiadores chamam de catástrofe demográfica da população indígena (Silvia, 1991). Os índios foram vítimas de doenças como sarampo, varíola, rubéola, escarlatina, tuberculose, febre tifoide, malária, disenteria, gripe, trazidas pelos colonizadores europeus, para as quais não tinham defesa imunológica.[5] Junto com os escravos africanos, aportou também um novo tipo de malária[6] em solo americano.
A grande maioria dos agentes patológicos[7] veio abordo das naus lusitanas e aqui desembarcavam na cidade de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, e logo encontravam um ambiente propício para se proliferassem devido os maus âmbitos de higiene dos próprios colonos portugueses e dos nascidos na terra, os luso-brasileiros (filhos de pai e mãe lusitanos mas nascidos no Brasil). Vários Zé ninguéns também herdaram os maus âmbitos higiênicos dos portugueses. Quem eram os Zé ninguéns que nunca foram vistos como portugueses? Esses eram os filhos bastardos dos colonos portugueses com mulheres indígenas ou com escravas africanas com, esses quando incorporados na vida urbana não eram menos desprovidos de âmbitos de limpeza do que os autênticos lusitanos. Era algo bem comum, na cidade de São Sebastião do Rio, na cidade São Salvador da Bahia de Todos os Santos ou em qualquer outro núcleo urbano brasileiro colonial, um transeunte era “atingido” por excrementos humanos voadores enquanto seguia pela rua. Não havia esgoto, e o hábito era jogar o resíduo pela janela mesmo. As ruas, claro, não ficavam exatamente limpas, e se tornavam bastante insalubres[8]. Não tendo na colônia nenhuma faculdade de medicina, doenças contagiosas chegavam e ficavam sem e se proliferavam[9] com facilidade porque não havia resistência por falta de médicos e medicamentos eficazes.  Mesmo nos últimos dias da década de 90 do século XVIII, já muito próximo do fim do período colonial e da chegada da família real portuguesa em fuga para o Brasil, a colônia portuguesa na América do Sul, digo o Brasil, já com uma população estimada em cerca de 3 milhões de habitantes, não tinha mais de 12 médicos formados para atender os luso-brasileiros, é bom lembramos que todos eram importados. Por tudo isso, a expectativa de vida era muito curta. Era uma raridade os indivíduos que passavam dos 30 anos. As Crianças eram vítimas fáceis: nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, apenas uma em cada três crianças nascidas nas áreas urbanizadas da colônia portuguesa conseguia sobreviver.

A pólvora como medicamento[10]
Escassos também em Portugal, os físicos eram mandados Dentre medidas hoje consideradas curiosas, como o acendimento de fogueiras, a expulsão das meretrizes da cidade
Mesmo quando o paciente sendo um sujeito abastado ainda precisava conta com a sorte porque ter riqueza não era garantia de conseguir assistência médica profissional, sua situação não era das melhores – os médicos também não sabiam muito bem o que estavam fazendo. Para termos uma ideia da medicina praticada no mundo colonial português no final do século XVII, vamos lembrar o médico português João Ferreira Rosa, que veio ao Pernambuco em caráter excepcional, devido a grande epidemia de febre amarela que assolava a cidade de Recife. Em 1690, o médico João Ferreira Rosa, mediante o contrato de uma pensão de 20 mil réis e uma ajuda de custo de 50 mil réis, apresentou as regras para uma campanha considerada como a primeira de caráter profilático[11] das Américas, do alto do seu reconhecimento como um médico[12] renomado que veio fazer parte dos poucos profissionais de saúde da colônia, recomendou, entre outras coisas, a expulsão das prostitutas. Segundo ele, elas ofendiam a Deus, que poderia querer se vingar. Além da expulsão das prostitutas e a emanação de tiros de canhão para afugentar a epidemia, o médico também ordenou medidas higiênicas que resultaram no enfraquecimento gradativo do mal. Os remédios daquela época, aliás, frequentemente envolviam ingredientes como fumo, fezes de cavalo, aguardente e, está documentado, pólvora. Imagine o alvoroço que isso tudo não causava no organismo do vivente, acabando por fazer muito mais mal do que bem. Ou seja, mesmo com a chegada da Corte ao país em 1808 e a criação de duas faculdades de medicina por aqui (uma em Salvador e outra no Rio), a saúde pública no país não melhorou muito. A própria expectativa de vida só viria a subir significativamente no século XX.  



[1] med elevação da temperatura corporal acima de 37o C; pirexia.
[2] Med pleurises o mesmo que pleurisa. Pleurisia ou pleurite é uma inflamação das pleuras pulmonares (parietal e visceral) que pode ser seca ou com aumento do líquido pleural (derrame pleural).
[3] O bócio endêmico ou carencial corresponde a um aumento de tamanho da tireoide, formando um inchaço no pescoço, também chamado de papo.
[4] Disfunção orgânica, ger. manifestada por uma série de sintomas; mal, doença, enfermidade.
[5] O sistema imunológico: (tambem conhecido como sistema imunitário) é a defesa do organismo contra organismos infecciosos e outros invasores. (anticorpos ou defesas naturais que imunizam contra doenças).
[6] Malária, Doença infecciosa febril aguda causada por parasita unicelular, caracterizada por febre alta acompanhada de calafrios, suores e cefaleia, que ocorrem em padrões cíclicos, a depender da espécie de parasita infectante. Nomes populares: Paludismo, impaludismo, febre palustre, febre intermitente, febre terçã benigna e maligna, maleita, sezão, tremedeira ou batedeira.
[7] Um agente patogénico ou agente patogênico, também chamado de agente infeccioso ou etiológico animado, é um organismo, microscópico ou não, capaz de produzir doenças infecciosas aos seus hospedeiros sempre que estejam em circunstâncias favoráveis, inclusive do meio ambiente. Podem ser bactérias, vírus, protozoários, fungos ou helmintos. O agente patogênico pode se multiplicar no organismo do seu hospedeiro, podendo causar infecções e outras complicações.
[8] (insalubre) pouco saudável, capaz de provocar doenças.
[9] Pretérito imperfeito do verbo proliferar.  Para medicina é multiplicar-se rapidamente; propagar-se, espalhar-se.
[10] Substância ou preparado us. no tratamento de uma afecção ou de uma manifestação mórbida; medicação, remédio, fármaco.  
[11] O termo "profilático" vem de profilaxia, do grego prophýlaxis = cautela. Profilático refere-se a profilaxia e significa preventivo, sendo utilizado para designar algo capaz de prevenir ou atenuar determinada doença (medidas/ações profiláticas, tratamento profilático). Profilaxia pode ser definida como sendo um conjunto de medidas que visam prevenir, em nível populacional, uma doença.
[12] O médico é aquele que detém os conhecimentos da medicina e pode exercer o tratamento medico em busca da cura de uma doença ou de sua prevenção. Médico prático é aquele que exerce a profissão de médico sem ter a formação acadêmica. Ele aprendeu a arte de curar com algum médico credenciado e se submeteu aos exames que o permitem atuar. Esta situação foi comum no século XIX no Brasil.

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FONTES BIBLIOGRAFICAS


EDLER, Flavio Coelho. Saber Médico e poder profissional: do contexto luso-brasileiro ao Brasil Império. SP: 2000.
FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo:
Ed. Martins Fontes, 1999.
GURGEL,Profa. Dra. Cristina Brandt Friedrich Martin  Grupo de Estudos História das Ciências da Saúde FCM, Unicamp. São Paulo: 2012.
WEHLING, Arno. Fundamentos e Virtualidades da Epistemologia da História: Algumas questões. Estudos Históricos, v. 5, n. 10, p. 147-169, 1992. Disponível em , acesso em 24.07.2008.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A república Velha, uma república de senhores do café



A República formal e a Realidade Social

A constituição de 1891 era expressão daquilo que existia de mais avançado nos países europeus e norte-americanos, onde a burguesia havia muito se consolidara. Por isso mesmo sua aplicação efetiva era muito dificultada. Apesar da Abolição da escravidão (1888) persistia no Brasil o caráter colonial da economia. O Brasil era um país de economia essencialmente agrária, salientando-se aquelas unidades voltada para o mercado externo e dele dependentes. Daí a pouca importância para o mercado interno e ausência de conexões econômicas entre várias regiões, que na verdade se sobrepunham, ao invés, de se completarem mutuamente.A solução federalista, adotada pela constituição de 1891, que deu autonomia aos estados, não estabeleceu como devia a igualdade entre os membros da federação. Ao contrário, criou oportunidades para os grandes estados dominassem o poder federal segundo seus próprios interesses.A fundação da república veio, na realidade, atender os interesses dos grandes fazendeiros de café paulistas, mineiro e cariocas. A República Velha, por isso foi chamada de República do Café. A imensa população dependia da economia cafeeira, direta ou indiretamente, considerando inclusive os setores urbanos em desenvolvimento. A grande massa que foi marginalizada na própria elaboração da República permaneceria como espectador passivo até o final da República Velha.Modelo Agro explorador - A América Latina como fornecedora de matéria prima e consumidora de produtos industrializados vindos da Inglaterra.

fonte:KOSHIBA, Luiz; PEREIRA, Denise manzi Frayze.História do Brasil. atual ed. São Paulo, 1993.

A Revolta da Chibata


No ano de 1910, mais de 200 marujos agitaram a Baía de Guanabara, ao se apoderarem de navios de guerra para exigir o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil, herança do período imperial, onde essa arma era tida como a mais importante e dirigida pelos mais "aristocráticos" oficiais. Foi a Revolta da Chibata, liderada por João Cândido, o Almirante Negro.
O Minas Gerais, um dos modernos navios recém-adquiridos pela Marinha na época da RevoltaO Brasil era uma das maiores potências navais do mundo, destacando-se a sua Esquadra Branca formada pelos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, pelos cruzadores Rio Grande do Sul e Bahia e por mais 18 navios. O Governo gastara uma fortuna para modernizar sua esquadra, mas o código disciplinar da Marinha era o mesmo do tempo da monarquia, assim como os arbitrários processos de recrutamento. Criminosos e marginais, produtos de uma sociedade que lhes negava maior sorte, eram colocados lado a lado com homens simples do interior para cumprir serviço obrigatório durante 10 a 15 anos! As desobediências ao regulamento eram punidas com chibatadas. Por isso, as revoltas ocorriam antes mesmo do ingresso na corporação.O decreto nº 3, de 16 de novembro de 1889, um dia após a Proclamação da República, extinguiu os castigos corporais na Armada, mas em novembro do ano seguinte o marechal Deodoro, contraditoriamente, tornou a legalizá-los: "para as faltas leves prisão e ferro na solitária, a pão e água; faltas leves repetidas, idem por seis dias; faltas graves, 25 chibatadas".Como os reclamos dos marujos não foram ouvidos, eles passaram a conspirar. Uma primeira advertência foi feita durante a ida de uma divisão da Marinha às comemorações da Independência chilena, em que ocorreram 911 faltas disciplinares, a maioria punida com açoites: "Venho por meio destas linhas pedir para não maltratar a guarnição deste navio, que tanto se esforça por trazê-lo limpo. Aqui ninguém é salteador nem ladrão", dizia um aviso ao comandante de um dos navios, assinado por um marinheiro conhecido como Mão Negra.Na madrugada de 16 de Novembro a Guanabara estava repleta de navios estrangeiros que aportaram para a posse do marechal Hermes da Fonseca na presidência da República. Ao raiar do dia, toda a tripulação do navio Minas Gerais foi chamada ao convés para assistir aos castigos corporais a que seria submetido o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes. Na noite anterior ele ferira a navalhadas o cabo Valdemar, que o havia denunciado por introduzir duas garrafas de cachaça no navio. Sua pena: 250 chibatadas e não mais 25 como vinha acontecendo.Junto à tripulação do navio havia também oito carrascos oficiais. Depois de examinado pelo médico de bordo e considerado em perfeitas condições físicas, Marcelino foi amarrado pelas mãos e pés e submetido ao castigo. Durante o castigo, Marcelino desmaiou de dor, mas a surra continuou. Ao fim das 250 chibatadas, suas costas estavam banhadas em sangue, lanhadas de cima para baixo. Desacordado, ele foi desamarrado, embrulhado num lençol e levado aos porões. Lá jogaram iodo em suas costas e o deixaram estrebuchando no chão.A Campanha Civilista de Rui Barbosa à presidência da República, as revoltas populares ocorridas no Rio de Janeiro na primeira década do século XX e o descontentamento de diversos setores da sociedade com o tipo de República liberal que foi instaurada no país, foram fatores que fizeram parte do contexto no qual se insere a Revolta da Chibata, deixando à mostra o grande descontentamento social presente no Brasil na época anterior a I Grande Guerra. Expondo assim a inserção dos marinheiros na vida social da capital federal.Tendo que se adicionar ainda a esse painel a falta crônica de mão-de-obra para a Marinha de Guerra, além do alistamento militar feito de maneira brutal, engajando criminosos (muitas vezes capoeiras), separando famílias e engajando homens e adolescentes por vinte anos, tempo que muitos deles não resistiam. Apesar de já existirem as primeiras Casas de Aprendiz de Marinheiros, locais destinados a órfãos e meninos pobres que eram educados para vida como praças da Marinha de Guerra, eram homens mestiços ou negros, em sua maioria, que serviam ao projeto de país e ao projeto civilizatório das massas perigosas, na visão das elites. Todavia, tais homens entrando em contato não somente com o duro labor, mas, também com populações do país inteiro sem esquecer das missões internacionais, possivelmente proporcionaram uma maior compreensão da realidade deles. Tornando cada vez mais latente e insustentável sua situação, a ponto de após a renovação de parte da esquadra de guerra, com a aquisição de encouraçados britânicos, deixou mais claro a falta de qualificação e o arcaísmo das codificações da Marinha de Guerra. Para tanto os marinheiros sublevados filtraram dos discursos políticos existentes algumas idéias para fundamentar suas revindicações como revela uma carta enviada por um marinheiro sublevado para o jornal Correio da Manhã de 25/11/1910:
Ao lado de um dos marinheiros, João Cândido lê o manifesto da Revolta: (Agência Estado)“Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910 – Ilustrado sr. redator do Correio da Manhã – É doloroso o fato que ora se passa na nossa marinha de guerra, mas, sr. redator, quem os culpados? Justamente os superiores da referida Armada, estes que deviam encarar os seus subordinados como homens servidores da pátria; pelo contrario, eles são tratados como desprezíveis e sujeitos, á simples falta, nos castigos mais rigorosos possíveis. Têm hoje como símbolo do martírio desses infelizes a palmatória, as algemas, e o chicote, e tudo isso, ilustre sr. redator, na marinha que, conforme os plano do sr. ex-ministro dizia civilizar-se. A escravidão terminou-se a 13 de maio de 1888, com a áurea lei da liberdade, e os oficiais da nossa marinha de guerra, conquanto as leis militares tivessem abolido castigos, não ligaram importância às leis militares e à disciplina, castigando os seus subordinados com ódio com que os senhores castigavam os mãos escravos. Sr. redator, é doloroso sim, ver-se a nossa marinha de hoje passar fome e todas as privações, pelo descaso dos comandantes de navios da Armada. Com um pessoal resumido e sofredor, eles querem o serviço feito a tempo e hora, sem encarar o cansaço, isto quando em viagens longas, como se deu nestas vindas das nossas unidades da Europa para aqui.Os nossos pobres marinheiros e foguistas vieram como verdadeiros escravos, passando fome e sendo constantemente castigados com os ferros, a chibata e o bolo; em um dos últimos navios chegados, o comandante, durante a viagem, em alto mar, mandava amarrar o pobre marinheiro e fazia com este fosse lavar e pintar o costado do navio. Foguistas, estes coitados, faziam 6 horas de quarto e não tinham o direito ao descanso que, pela lei, lhes toca, porque eram logo chamados para outros serviços. O verdadeiro navio negreiro. É necessário, sr. redator, que publiqueis estas mal escritas palavras, afim de que, chegando elas ao conhecimento das autoridades competentes, possam sanar o mal, e o fato igual não mais se reproduza na nossa marinha de guerra. É necessário que os oficiais da Armada compreendam que estamos no século da luz. Abaixo a chibata, as algemas e a palmatória – Um marinheiro.”O uso do açoite, como visto, continuou sendo aplicado nos marinheiros como medida disciplinar, como no tempo em que existia o pelourinho. Todos os marinheiros, na sua esmagadora maioria negros, continuavam a ser açoitados às vistas dos companheiros, por determinação da oficialidade branca.Os demais marujos eram obrigados a assistir à cena infamante no convéns das belonaves. Com isto, criaram-se condições de revolta no seio dos marujos. Os seus membros não aceitavam mais passivamente esse tipo de castigo. Chefiados por Francisco Dias, João Cândido e outros tripulantes do Minas Gerais, navio capitânia da esquadra, organizaram-se contra a situação humilhante de que eram vítimas. Nos outros navios a marujada também se organizava: o cabo Gregório conspirava no São Paulo, e no Deodoro havia o cabo André Avelino.Num golpe rápido, apoderaram-se dos principais navios da Marinha de Guerra brasileira e se aproximaram do Rio de Janeiro. Em seguida mandaram mensagem ao presidente da República e ao ministro da Marinha exigindo a extinção do uso da chibata.O governo ficou estarrecido. Acharam tratar-se de um golpe político das forças inimigas. O pânico apoderou-se de grande parte da população da cidade. Muitas pessoas fugiram. Somente em um dia correram 12 composições especiais para Petrópolis, levando 3 000 pessoas. Todos os navios amotinados hastearam bandeiras vermelhas. Alguns navios fiéis ao governo ainda tentaram duelar com os revoltosos, mas foram logo silenciados. Com isto os marujos criaram um impasse institucional. De um lado a Marinha, que queria a punição dos amotinados, em conseqüência da morte de alguns oficiais da armada. Do outro lado, o governo e os políticos, que sabiam não ter forças para satisfazer essa exigência. Mesmo porque os marinheiros estavam militarmente muito mais fortes do que a Marinha de Guerra, pois comandavam, praticamente, a armada e tinham os canhões das belonaves apontados para a capital da República.Depois de muitas reuniões políticas, nas quais entrou, entre outros, Rui Barbosa, que condenou os “abusos com os quais, na gloriosa época do abolicionismo, levantamos a indignação dos nossos compatriotas”, foi aprovado um projeto de anistia para os amotinados. Com isto, os marinheiros desceram as bandeiras vermelhas dos mastros dos seus navios. A revolta havia durado cinco dias e terminava vitoriosa. Desaparecia, assim, o uso da chibata como norma de punição disciplinar na Marinha de Guerra do Brasil.As forças militares, não-conformadas com a solução política encontrada para a crise, apertaram o cerco contra os marinheiros. João Cândido, sentindo o perigo, ainda tentou reunir o Comitê Geral da revolução, inutilmente. Procuraram Rui Barbosa e Severino Vieira, que defenderam a anistia em favor deles, mas sequer foram recebidos por esses dois políticos. Uniram-se, agora, civis e militares para desafrontar os “brios da Marinha de Guerra” por eles atingidos. Finalmente veio um decreto pelo qual qualquer marinheiro podia ser sumariamente demitido. A anistia fora uma farsa para desarmá-los.São acusados de conspiradores, espalharam boatos de que haveria uma outra sublevação. Finalmente, afirmaram que a guarnição da ilha das Cobras havia se sublevado. Pretexto para que a repressão se desencadeasse violentamente sobre os marinheiros negros. O presidente Hermes da Fonseca necessitava de um pretexto para decretar o estado de sítio, a fim de sufocar os movimentos democráticos que se organizavam. As oligarquias regionais tinham interesse em um governo forte. Os poucos sublevados daquela ilha propuseram rendição incondicional, o que nãofoi aceito. Seguiu-se uma verdadeira chacina. A ilha foi bombardeada até ser arrasada. Estava restaurada a honra da Marinha.
João Cândido é escoltado para a prisão (Agência Estado)João Cândido e os seus companheiros de revolta foram presos incomunicáveis, e o governo e a Marinha resolveram exterminar fisicamente os marinheiros. Embarcaram-nos no navio Satélite rumo ao Amazonas.Os 66 marujos que se encontravam em uma masmorra do Quartel do Exército e mais 31, que se encontravam no Quartel do 1º Regimento de Infantaria, foram embarcados junto com assassinos, ladrões e marginais para serem descarregados nas selvas amazônicas. Os marinheiros, porém, tinham destino diferente dos demais embarcados. Ao lado dos muitos nomes da lista entregue ao comandante do navio, havia uma cruz vermelha, feita a tinta, o que significava a sua sentença de morte. Esses marinheiros foram sendo parceladamente assassinados: fuzilados sumariamente e jogados ao mar.João Cândido, embora não tenha participado do novo levante, também é preso e enviado para a prisão subterrânea da Ilha das Cobras, na noite de Natal de 1910, com mais 17 companheiros. Os 18 presos foram jogados em uma cela recém-lavada com água e cal. A cela ficava em um túnel subterrâneo, do qual era separada por um portão de ferro. Fechava-a ainda grossa porta de madeira, dotada de minúsculo respiradouro. O comandante do Batalhão Naval, capitão-de-fragata Marques da Rocha, por razões que ninguém sabe ao certo, levou consigo as chaves da cela e foi passar a noite de Natal no Clube Naval, embora residisse na ilha.A falta de ventilação, a poeira da cal, o calor, a sede começaram a sufocar os presos, cujos gritos chamaram a atenção da guarda na madrugada de Natal. Por falta das chaves, o carcereiro não podia entrar na cela. Marques da Rocha só chegou à ilha às oito horas da manhã. Ao serem abertos os dois portões da solitária, só dois presos sobreviviam, João Cândido e o soldado naval João Avelino. O Natal dos demais fora paixão e morte.O médico da Marinha, no entanto, diagnosticou a causa da morte como sendo "insolação". Marques da Rocha foi absolvido em Conselho de Guerra, promovido a capitão-de mar-e-guerra e recebido em jantar pelo presidente da República.João Cândido continuou na prisão, às voltas com os fantasmas da noite de terror. O jornalista Edmar Morel registrou assim seu depoimento pessoal: "Depois da retirada dos cadáveres, comecei a ouvir gemidos dos meus companheiros mortos, quando não via os infelizes, em agonia, gritando desesperadamente, rolando pelo chão de barro úmido e envoltos em verdadeiras nuvens da cal. A cena dantesca jamais saiu dos meus olhos. João Cândido enlouqueceu, sendo internado no Hospital dos Alienados.Ele e os companheiros só seriam absolvidos das acusações em 1912. Tuberculoso e na miséria, conseguiu, contudo, restabelecer-se física e psicologicamente. Perseguido constantemente, morreu como vendedor no Entreposto de Peixes da cidade do Rio de Janeiro, sem patente, sem aposentadoria e até sem nome, este herói que um dia foi chamado, com mérito, de Almirante Negro.Os que fizeram a Revolta da Chibata morreram ou foram presos, desmoralizados e destruídos. Seu líder, como visto, terminou sem patente militar, sem aposentadoria e semi-ignorado pela História oficial. No entanto, o belíssimo samba "O Mestre-Sala dos Mares", de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre "nas pedras pisadas do cais". A mensagem de coragem e liberdade do "Almirante Negro" e seus companheiros resiste.HOMENAGEM DE JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC À "REVOLTA DA CHIBATA""Mestre-Sala dos Mares", de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Sobre a censura à música, o compositor Aldir Blanc conta:"Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas a um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (...) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o "bonzinho", disse mais ou menos o seguinte:- Vocês não então entendendo... Estão trocando as palavras como revolta, sangue etc. e não é aí que a coisa tá pegando...Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um "telefone" nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:- O problema é essa história de negro, negro, negro..."
O Mestre Sala dos Mares(João Bosco / Aldir Blanc)(letra original sem censura)Há muito tempo nas águas da GuanabaraO dragão do mar reapareceuNa figura de um bravo marinheiroA quem a história não esqueceuConhecido como o almirante negroTinha a dignidade de um mestre salaE ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatasFoi saudado no porto pelas mocinhas francesasJovens polacas e por batalhões de mulatasRubras cascatas jorravam das costasdos negros pelas pontas das chibatasInundando o coração de toda tripulaçãoQue a exemplo do marinheiro gritava entãoGlória aos piratas, às mulatas, às sereiasGlória à farofa, à cachaça, às baleiasGlória a todas as lutas inglóriasQue através da nossa históriaNão esquecemos jamaisSalve o almirante negroQue tem por monumentoAs pedras pisadas do caisMas faz muito tempo
O Mestre Sala dos Mares(João Bosco / Aldir Blanc)(letra após censura durante ditadura militar)Há muito tempo nas águas da GuanabaraO dragão do mar reapareceuNa figura de um bravo feiticeiroA quem a história não esqueceuConhecido como o navegante negroTinha a dignidade de um mestre salaE ao acenar pelo mar na alegria das regatasFoi saudado no porto pelas mocinhas francesasJovens polacas e por batalhões de mulatasRubras cascatas jorravam das costasdos santos entre cantos e chibatasInundando o coração do pessoal do porãoQue a exemplo do feiticeiro gritava entãoGlória aos piratas, às mulatas, às sereiasGlória à farofa, à cachaça, às baleiasGlória a todas as lutas inglóriasQue através da nossa históriaNão esquecemos jamaisSalve o navegante negroQue tem por monumentoAs pedras pisadas do caisMas faz muito tempo Fonte: História do Negro Brasileiro, Clóvis Moura, São Paulo: Editora Ática S.A., 1992 CEFET (SP) in:http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/sala_de_aula/historia/historia_do_brasil/republica_velha/revolta_da_chibata